A <em>Bolha</em>

Jorge Cordeiro
A Green Zone em Bagdad, mais popularmente conhecida como a Bolha Americana na capital iraquiana, constitui aquela parcela de território capaz de realizar o sonho americano que tem acompanhado a sua aventura belicista naquele país. Ao que se conhece, aqueles dez quilómetros quadrados — isolados do país ocupado por quilómetros de arame farpado e barreiras de betão — e onde não faltarão lojas de conveniência, pizzarias e animados pubs, apresentam-se capazes de sublimar o peso das frustrações face à inconsequência dos feitos militares ambicionados e de alimentar as ilusões que os acompanharam. Quatro anos depois, os Estados Unidos sobrevivem ali, animados no seu autismo e resguardados por um regime de apartheid que para si próprios decretaram. Ali — indiferente ao milhão de mortos provocados pela sua intervenção militar e ao caos lançado na vida de milhões de iraquianos — se cultivará aquela ilusão necessária à justificação da sua acção criminosa. E àquilo se resumirá o «Iraque modelo» que Bush e os seus acólitos não se cansam de apresentar como o novo, liberto e democrático Iraque que ali, e apesar da inexplicável «ingratidão» dos iraquianos, os americanos lá vão esforçadamente, umas vezes à bomba outras aos tiros, construindo.
A Bolha fará parte do actual ideário civilizacional que povoa a cabeça da Administração Bush. Levando em linha de conta o que Boyden Gray (embaixador dos Estados Unidos junto da União Europeia) afirmou em entrevista reproduzida por um semanário a propósito de Guantánamo — um «sítio civilizado» segundo a criatura —, estamos em crer que a área onde se acoitam na capital iraquiana será o paraíso. De acordo com esta personagem, a má opinião sobre aquele campo de concentração (que segundo ele dispõe de «condições bastante boas») ou aquilo que, confrontado com a prática da tortura, designa como «aberração temporária», residirá em meros equívocos gerados por «explicações insuficientes». Segundo o senhor Gray, agastado com a incompreensão dos europeus, tudo se resolverá com o «bom explicar das coisas» e «um passar melhor da mensagem». A expectativa de Boyden Gray em ser bem sucedido na explicação do inexplicável será directamente proporcional à receptividade que espera nos estreitos meandros dos gabinetes e corredores onde se move. Terá razão. A começar em Durão Barroso, presidente da União Europeia — mordomo diligente e recompensado da cimeira da guerra — meias explicações serão bastantes. Mas redondamente se enganará — como o testemunham as acções de protesto contra a ocupação que um pouco por todo o mundo se realizaram — se ilusão tiver quanto a eventual sucesso de convencimento dos povos.


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